Se a "caridade" de Chico Xavier tivesse existido, Brasil teria sido próspero há muito tempo


ESTOCOLMO, CAPITAL DA SUÉCIA, CONSIDERADA UMA DAS NAÇÕES MAIS PRÓSPERAS DO MUNDO.

Ouvimos falar da suposta caridade de Francisco Cândido Xavier há, pelo menos, mais de 75 anos. Só que os resultados sempre foram muito medíocres, ínfimos, praticamente a tal "caridade" só beneficiou o suposto benfeitor, que trouxe fanatismo em prol de si mesmo e uma impressionante promoção social.

Embora José Herculano Pires, na sua boa-fé, blindasse Chico Xavier, o motivo que o jornalista atribuiu a Divaldo Franco, sobre sua suposta caridade, como "conduta condenável" que lhe serve de "disfarce para a sustentação das posições anteriores, meio de defesa para a sua carreira sombria no meio espírita", isso pode, sim, ser atribuído também ao mineiro, apesar de sua blindagem, por semelhantes razões.

Divaldo Franco estava brigado com o seu mestre por conta de acusações de plágios "psicográficos" - como se Chico nunca tivesse plagiado, o que Obras Psicografadas, com propriedade, desmente - e por isso teria recebido tais críticas. Mas não pensemos que Chico Xavier era essa doçura toda, porque o artifício da "caridade" já era um escudo tramado entre ele e Antônio Wantuil de Freitas, presidente da "Federação Espírita Brasileira", como uma espécie de "carteirada".

Infelizmente, no Brasil, se vê a "caridade" pelo ponto de vista do suposto benfeitor. O pior é que, em muitos casos, nem é ele quem ajuda. Chico Xavier pedia a seus seguidores para fazerem donativos, assumirem trabalhos voluntários etc, e também não era o "médium" quem administrava. E nem era ele que cobrava dinheiro às autoridades. Tudo era trabalho de terceiros. Ele só pedia, mas se o mérito de quem pede fosse assim tão supervalorizado, qualquer freguês de um restaurante levaria o crédito de cozinheiro.

O quadro do Caldeirão do Huck é educativo nesse sentido. Luciano Huck, empresário e apresentador do programa, é adepto assumido de Chico Xavier e, como este, tornou-se o "filantropo da Rede Globo" de ocasião, dentro dos moldes que a emissora televisiva, na tentativa de anestesiar o público em momento de convulsões sociais, inventa um "filantropo", pretensamente humanista, para ser alvo de adoração e devoção plenas.

Huck não mexe um fio de cabelo em prol dos pobres. Anunciantes financiam todo o trabalho, feito por terceiros, seja para reformar casas e veículos velhos, seja para entrevistar pessoas. Huck só cumpre o papel de apresentador e, com isso, torna-se um "dublê de filantropo", um observador alheio e distante do sofrimento humano, que no entanto serve de "canal" para promover a chamada "masturbação pelos olhos" da comoção humana, quando reduzida a um mero entretenimento.

Chico Xavier fez coisa semelhante, mas em outro contexto. Isso em "casas espíritas" de Pedro Leopoldo, sob o patrocínio de Wantuil e da "União Espírita Mineira", tarefa depois continuada em Uberaba, em duas instituições, "Grupo Espírita da Prece" e "Comunhão Espírita Cristã". "Disfarces" para blindá-lo das acusações de deturpar a Doutrina Espírita e de explorar a produção de literatura fake, das quais existem provas e evidências.

Quando a Rede Globo, poucos anos após a morte de Wantuil, "vestiu a camisa" de Chico Xavier, programas como Globo Repórter e Fantástico passaram a explorar as "cartas mediúnicas" do "médium", mais um daqueles espetáculos ilusionistas como os das fraudes de materialização, nas quais supostas mensagens espirituais atribuídas a pessoas comuns eram produzidas, como se fosse fácil demais chamar alguém já morto para "mandar algum recado".

Mas o "telefone" não "toca do lado de lá"? Com que facilidade Chico Xavier arrumou para chamar uma grande geração de escritores renomados para lhes enviar, direto do mundo espiritual, mensagens espiritualistas? Por atrativos maiores que os de Ava Gardner e Rita Hayworth? Tenham a santa paciência! E os mortos comuns? Há muita coisa estranha e mal contada nessas narrativas, ainda mais quando o "espiritismo" brasileiro diz não chamar os mortos e preferir que eles se apresentem espontaneamente, coisa reprovada por Allan Kardec.

CHICO XAVIER, O "FILANTROPO" DA REDE GLOBO

Isso é uma outra questão, a ser esclarecida mais tarde. Aqui a questão é a suposta caridade, e os programas da Rede Globo foram cruciais para que, nos tempos da ditadura militar, Chico Xavier, o maior propagandista do regime, nunca devidamente reconhecido por tal missão, seja promovido para anestesiar o público sob a imagem de pretenso filantropo (como se faz hoje com Huck), sob o claro objetivo de evitar que houvesse algum clamor pela redemocratização do país.

A ideia era essa: se a ditadura militar era ruim, que continuasse assim, bastando apenas o papel "consolador" de Chico Xavier e suas anestesias "mediúnicas", com uma "caridade" usada para iludir as pessoas de que "algo estava sendo feito pelo povo" e com mensagens "psicográficas" dos mortos que têm um caráter subliminar bastante traiçoeiro.

Afinal, como muitas pessoas estavam morrendo na época, com a explosão de convulsões sociais que geravam crimes e acidentes violentos, além do fato de que, sob o silêncio quase total da imprensa, opositores da ditadura militar eram assassinados aos montes nos bastidores da repressão militar, a ideia de que esses mortos "estão melhor de vida" faz transformar a morte num espetáculo, ao mesmo tempo em que vítimas de tragédias revoltantes passam a serem alvos de resignação emocional, em vez da natural indignação.

A ideia é essa. Aceitar as tragédias humanas, acreditando numa "vida futura" que nenhum estudo científico conseguiu detalhar como é, forçando as pessoas a ver na vida presente um roteiro de infortúnios considerado irrevogável. E, com isso, também se conformar com os mortos da repressão militar, quando, embora lamentando os defeitos dos torturadores, eles sejam vistos sob o atenuante de terem sido um "mal necessário", "instrumentos de Deus" para a depuração moral das vítimas.

Esses são artifícios que nem as forças progressistas de esquerda conseguiram perceber. Chico Xavier foi um colaborador da ditadura militar dos mais convictos e, por isso, recebeu homenagem da Escola Superior de Guerra. Isso não foi por acaso. A ditadura militar não condecorou Chico Xavier porque foi forçada a condecorar um "homem de bem" e este também não apoiou a ditadura militar por contragosto. Houve uma afinidade profunda de sintonias e interesses que não deve ser ignorada.

Também não foi por acaso ele ter sido escolhido para ser o "filantropo da Rede Globo", seja para neutralizar, sob o verniz "ecumênico" e "laico" - o "espiritismo" às vezes se mascara como uma "não-religião" e uma "filosofia de vida" - , a ascensão dos pastores eletrônicos (R. R. Soares, Edir Macedo), seja para evitar a campanha de redemocratização que derrubasse a ditadura militar através da ascensão do sindicalista Luís Inácio Lula da Silva.

"CARIDADE" COMO PROMOÇÃO SOCIAL

Uma curta frase dada pelo professor e semiólogo paulista Wilson Roberto Vieira Ferreira, do blog Cinegnose, acadêmico que, por ironia, é complacente com a imagem mítica do suposto médium Chico Xavier - entendemos ser, provavelmente, por boa-fé e desconhecimento das irregularidades do ídolo religioso - , a respeito de um filme surreal estadunidense, Greener Grass, diz muito sobre a "caridade" espetacularizada de Chico Xavier e seu "altruísmo de resultados":

"Ser altruísta pode ser também uma competição, especialmente quando os personagens fazem de forma performativa, para chamar a atenção para merecer aprovação dos outros".

Daí que vemos que as pessoas que mais defendem Chico Xavier são pessoas naturalmente egocêntricas, arrogantes, orgulhosas, falsamente sábias e, sobretudo, temperamentais, porque precisam de um gancho para esse "altruísmo de resultados" que serve tanto para o mascaramento do egoísmo humano como uma forma de obtenção de vantagens pessoais. Sem esse jogo de cena, as pessoas, desmascaradas, se irritam quando entregues ao vazio de seu realismo cruel.

A "caridade" de Chico Xavier só serviu para esse jogo de cena, porque resultados profundos simplesmente nunca existiram. Os benefícios foram fajutos, e houve também os falsos benefícios da pretensa consolação das "cartas dos espíritos dos entes queridos" que, além de apresentar indícios de fraudes, só espetacularizaram a morte, estimularam sentimentos obsessivos pelos mortos e alimentaram o sensacionalismo da grande mídia, incluindo a imprensa marrom.

Se essa "caridade" tivesse mesmo existido, o Brasil teria alcançado graus de desenvolvimento humano dignos de países escandinavos como a Suécia. Não se pode fugir a isso. Chico Xavier é considerado uma quase "unanimidade", é adorado e blindado por milhares de brasileiros, e no entanto nunca vimos um pingo de progresso social pleno. Muito pelo contrário, o Brasil só mergulhou fundo nas suas crises, salvo raros momentos de recuperação (que nada tinham a ver com os atos do "médium").

A "caridade" de Chico Xavier sempre foi fajuta, porque não trouxe resultados profundos, o que se esperaria, se considerarmos as atribuições de grandeza dadas pelos seus seguidores e adeptos (mesmo os "isentos" e "distanciados"). Essa "caridade" só serviu mesmo para a promoção pessoal do "médium", e, neste caso, José Herculano Pires foi irônico em sua declaração sobre Divaldo Franco.

É como se Herculano Pires tivesse dado um tiro a queima-roupa que atingiu Divaldo, mas cuja bala atravessou a porta, pela velocidade, e também tivesse atingido Chico Xavier. Herculano, na boa-fé, esqueceu-se do ditado "amigos, amigos, negócios à parte" e blindou Xavier, mas com seu comentário sobre Divaldo, cometeu um "fogo amigo" contra o outro, sem querer.