Amauri Xavier Pena não teria sido alcoólatra, mas vítima de campanha caluniosa


Uma hipótese que pode complicar a reputação de Francisco Cândido Xavier - que repousa no imaginário dos brasileiros como uma "fada-madrinha do mundo real", através de uma abordagem adocicada e piegas sobre sua pessoa e obra - é que seu sobrinho Amauri Xavier Pena, acusado de tanta coisa, pode não ter sido um alcoólatra, o que aumenta as suspeitas sobre a morte do sobrinho de Chico Xavier, ocorrida há 60 anos.

Amauri tentava trazer revelações sobre as fraudes mediúnicas que envolveram Chico Xavier, a "Federação Espírita Brasileira" e a "União Espírita Mineira". Foi em agosto de 1958. O sobrinho de Chico Xavier era designado para seguir a carreira de suposto médium do tio, e Amauri não se sentia capaz de tamanha tarefa, e, pressionado pelo "meio espírita", resolveu denunciar. Prometeu fazer uma devassa dessas fraudes, o que causou escândalo na época, ganhando matéria de âmbito nacional na revista Manchete, de 09 de agosto daquele ano.

Isso irritou o "meio espírita", que ao saber de matéria publicada no Diário de Minas, teria feito, segundo menção da revista Manchete, "ameaças de morte por envenenamento" ao jovem, e artigos caluniosos como um rancoroso texto de Henrique Rodrigues - escritor "espírita" já falecido - eram publicados, numa campanha de assassinato de reputação que atingiu Amauri.

TIDO ERRONEAMENTE POR SETORES DAS ESQUERDAS COMO "ALMA-GÊMEA DE CHICO XAVIER", O EX-PRESIDENTE LULA FOI VÍTIMA DE CAMPANHAS ANTI-PETISTAS QUE O DEFINIRAM, SEM PROVAS, COMO SUPOSTO ALCOÓLATRA.

Amauri teria sido alvo de campanha na qual era acusado de tudo: assaltar residências, ser alcoólatra incurável, fabricar notas falsas etc. Só teria faltado acusações de estupro, mas a campanha que o "meio espírita", supostamente dedicado a evitar o rancor até contra os piores inimigos, realizou para depreciar o jovem, praticamente tratado como um cão vira-lata doente, tamanhas as calúnias lançadas contra o sobrinho de Chico Xavier.

As acusações de alcoolismo eram juízos de valor que não eram muito diferentes do que os opositores do então presidente do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva - que setores das esquerdas, erroneamente, definem como "alma-gêmea de Chico Xavier" - , alegavam do petista, inventando que Lula, só por gostar de tomar cerveja, seria um "alcoólatra".


Outra das acusações infundadas, a de falsificação de dinheiro, era descrita pela alegação de que Amauri Xavier Pena supostamente teria rabiscado uma nota de dinheiro botando um zero a mais, adulterando grosseiramente o seu valor.

Foi exatamente essa desculpa que foi usada pelo truculento policial Derek Chauvin, em Mineápolis, Estado de Minesota (EUA), para assassinar covardemente o segurança negro George Floyd, sufocando o pescoço da vítima pelo joelho do policial, que ainda ficou indiferente aos apelos de populares e do próprio Floyd, que dizia que não podia mais respirar. O crime foi em 25 de maio de 2020 e comoveu os EUA e o mundo. Chauvin, que se divorciou da esposa, aguarda sentença criminal na prisão.

O caso Amauri Xavier é um dos casos sombrios da vida de Chico Xavier e que deveria ser reaberto, apesar de, por ter sido um episódio antigo, não produzir mais efeitos jurídicos, já que ele prescreveu juridicamente há muito tempo.

Mas se até o massacre de Tulsa, Estado de Oklahoma, também nos EUA, em 31 de maio de 1921, quando supremacistas brancos destruíram casas, roubaram mercadorias e assassinaram negros, inclusive mulheres e crianças, está sendo reaberto para investigação, o caso Amauri Xavier pode se tornar um pesadelo para aqueles que cultuam Chico Xavier num imaginário que é um verdadeiro "conto de fadas" transmitido nas redes sociais.

A investigação pode não trazer efeitos jurídicos, mas mostrará o lado macabro de Chico Xavier, revelando a sua trajetória arrivista que, em muitos aspectos, o faz comparável a Jair Bolsonaro, principalmente pela contundente semelhança dos lemas "Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho" e "Brasil, Acima de Tudo, Deus, Acima de Todos".

As revelações que Amauri trariam podem ter sido reveladas por Ana Lorym Soares, historiadora, através do trabalho O livro como missão: A publicação de textos psicografados no Brasil dos anos 1940 a 1960, em 2018. Só que a autora, seguindo um vício dominante nos meios acadêmicos, que tratam os assuntos em geral de maneira complacente e meramente descritiva, preferiu se deixar levar pela desculpa, sem pé nem cabeça, de que as modificações editoriais das "psicografias" eram feitas para "tornar os livros mais viáveis para os leitores comuns".

A interpretação da autora é que, passando pano nos problemas observados no seu objeto de pesquisa, preferiu ocultar as denúncias de que um esquema criminoso estaria sendo feito para não somente usurpar os nomes dos mortos, mas para desqualificá-los, impondo a "carteirada" da FEB sobre os supostos autores espirituais, dando a crer que os espíritos benfeitores "não sabem dar recado para os vivos", impondo assim a pretensa superioridade de Chico Xavier ao grande público.

Sacrificar um sobrinho para abrir caminho para a trajetória arrivista, "queimando um arquivo" que revelaria fraudes terríveis, mostra o quanto Chico Xavier nunca passou de uma pessoa leviana, da qual se observam, facilmente, violações terríveis aos ensinamentos da Doutrina Espírita, pondo xeque-mate à falácia de que "ele ajudou a divulgar o Espiritismo".

Dessa maneira, só mesmo a fascinação obsessiva ou a subjugação, que mantém os brasileiros "enfeitiçados" com a figura do "bom velhinho" da qual Chico Xavier é visto pela maioria das pessoas, é feita para lhes cegar aos apelos constantes de lógica, bom senso e honestidade que NÃO existem, em realidade, na vida e obra do "médium", que goza, mesmo postumamente, das teimosias e ilusões da fé cega de seus seguidores e simpatizantes dos mais diversos tipos.

Daí que a retomada do caso Amauri Xavier Pena, se não traz mais qualquer chance de punição, pelo menos tende a pôr em risco o mundo de sonho e fantasia que envolve a adoração que muitos prestam ao seu tio.